terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Essa coisa chamada felicidade



Minha pequena Sophie já tinha quase dezoito anos quando tivemos esta conversa. Sempre muito questionadora, afinal tinha que ter puxado o espírito cientista do pai e combinado com a personalidade forte da mãe. Mas apesar de ser uma garota saudável e que cresceu com todas as melhores oportunidades, comecei a notar uma tristeza crescente na minha pequena. Tristeza que sempre tentava disfarçar, mesmo sem perceber, nas banalidades da vida. Há essa altura Sophie cada dia mais se aproximava de ser uma pessoa vazia e fútil, como se isso pudesse suprir de alguma forma seu déficit de felicidade.

Lembro bem desse dia, um domingo a tarde enquanto descansávamos na beira de um rio após uma longa trilha na mata local.

- Filha, qual o sentido da vida?

Surpresa com a pergunta certamente estranha, Sophie hesitou.

- Eu sei lá pai, isso de sentido da vida é muito complexo.

- É filha, eu sei. Mas como você se sente quando pensa sobre isso, digo, quando pensa sobre sua própria existência e o que te motiva a viver?

- Não sei pai, as vezes acho que não consigo encontrar sentido nas coisas.

- É, filha, e eu entendo você. Hoje na rotina que vivemos é muito difícil encontrar esse sentido. Estamos tão ocupados com nossas coisas, preocupados em como conseguir dinheiro, preocupados em ter um milhão de amigos, preocupados com o que vestir, comer e fazer que nem conseguimos saber ao certo de por quê fazemos tudo isso. As coisas tem um sentido imediato e só. E depois?

- Infelizmente passamos a ter uma vida descartável, com amigos descartáveis, relacionamentos descartáveis, empregos descartáveis. E isso é fruto do modelo de sociedade que escolhemos viver, onde o consumo é a lei, só que consumo não é felicidade. Tudo é consumível, mas só por um tempo, porque tudo sempre perde a validade.

- Sem perceber trouxemos isso para o plano pessoal. Essa lógica tornou as pessoas egoístas, preocupadas somente com elas mesmas e na sua busca insana por mais e mais prazer. Se algo deixa de nos dar prazer por curto tempo, mesmo que no longo prazo a recompensa possa ser incrível, nós desistimos e procuramos algo que nos dê prazer imediato.

- A consequência disso? Não nos preocupamos mais em ter amigos verdadeiros, porque amigos verdadeiros podem falar coisas que nem sempre gostamos. Ao invés disso preferimos ter muitos amigos, mas sempre superficiais. Passamos a acreditar que relacionamentos não foram feitos para durar, simplesmente porque não podemos aceitar conviver e aprender com os defeitos e problemas do outro, e ao invés de aceitar as delícias de se dividir e ter intimidade com alguém, preferimos o sexo casual, que pode ser bom, mas não traz felicidade.

- Por trás de toda esta cortina de futilidades as pessoas esquecem que a única coisa que faz sentido na vida é a felicidade. Ou na verdade, cegas de si mesmas, passam a buscar a felicidade nos lugares errados.

- Mas pai, felicidade é algo tão complexo! Não existe uma fórmula universal para isso.

- É verdade, Sophie. Mas se você parar para refletir sobre isso irá notar que existem princípios fundamentais que norteiam essa busca.

- A felicidade é um estado de paz e bem-estar que só consegue ser verdadeiramente alcançada se atender a três princípios básicos: é preciso estar bem com você mesma; é preciso estar bem com as pessoas a sua volta; e é preciso estar bem com o universo.

- Estar bem com você é fundamental. Só é possível ser feliz quando você aceita a si mesma do jeito que é, reconhece que não é perfeita e que nunca será, mas assume que precisa sempre buscar ser uma pessoa melhor – o que implica sim tentar mudar os seus defeitos mais graves. Somos diamantes brutos que precisam ser lapidados e polidos para deixarmos toda a nossa beleza brilhar. Um resumo deste princípio? Amor próprio.

- Estar bem com as pessoas a sua volta é fundamental. Ninguém é feliz sozinho, porque fomos programados para viver em grupo. Precisamos interagir, ter amigos, namorar, ter filhos, cada um dentro do seu plano pessoal de vida. A qualidade dessas relações nos dá prazer e conforto, e reconhecer que ninguém é forte sozinho é um passo fundamental para viver bem. Claro que isso implica aprender a conviver com os outros, saber respeitar e exigir respeito daqueles que te cercam.

- Por fim mas não menos importante, é preciso estar bem com o mundo a sua volta. Digo, mesmo que você cumpra com os dois princípios acima, ainda é preciso ter uma luz, um direcionamento filosófico que te dê respostas a perguntas que nem sempre conseguimos encontrar no dia a dia. A isso damos o nome de FÉ. Você pode ter fé em Deus, ou fé em um mundo melhor, mas você nunca será completamente feliz se não conseguir ter fé em nada, pois é isso que te proporciona uma conexão com o universo, um sentido e uma esperança que motivam a existência.

- Nossa pai, você falando assim até parece que é muito fácil ser feliz.

- Não filha, ser feliz nem sempre é fácil. É preciso entender que a felicidade é um caminho que trilhamos, muitas vezes fruto de nossas escolhas. Com quem escolhemos estar? O que escolhemos fazer da nossa vida? No que acreditamos? É um caminho muitas vezes difícil, mas é o único que vale a pena seguir.

- E você é feliz, pai?

Hoje posso dizer que sou. Demorei para aprender isto, mas a experiência é irmã da sabedoria. Percebo isso toda vez que paro e penso em tudo o que já vivi até aqui, e não me arrependo das escolhas que fiz. E principalmente quando olho para você, Sophie, e vejo o quanto valeu a pena ter tomado todas as decisões que me permitiram estar aqui com você hoje, e todas as escolhas que te permitiram ser esta incrível mulher que você está para se tornar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário