Minha
pequena Sophie já tinha quase dezoito anos quando tivemos esta conversa. Sempre
muito questionadora, afinal tinha que ter puxado o espírito cientista do pai e
combinado com a personalidade forte da mãe. Mas apesar de ser uma garota
saudável e que cresceu com todas as melhores oportunidades, comecei a notar uma
tristeza crescente na minha pequena. Tristeza que sempre tentava disfarçar,
mesmo sem perceber, nas banalidades da vida. Há essa altura Sophie cada dia
mais se aproximava de ser uma pessoa vazia e fútil, como se isso pudesse suprir
de alguma forma seu déficit de felicidade.
Lembro bem
desse dia, um domingo a tarde enquanto descansávamos na beira de um rio após
uma longa trilha na mata local.
- Filha,
qual o sentido da vida?
Surpresa
com a pergunta certamente estranha, Sophie hesitou.
- Eu sei lá
pai, isso de sentido da vida é muito complexo.
- É filha,
eu sei. Mas como você se sente quando pensa sobre isso, digo, quando pensa
sobre sua própria existência e o que te motiva a viver?
- Não sei
pai, as vezes acho que não consigo encontrar sentido nas coisas.
- É, filha,
e eu entendo você. Hoje na rotina que vivemos é muito difícil encontrar esse
sentido. Estamos tão ocupados com nossas coisas, preocupados em como conseguir
dinheiro, preocupados em ter um milhão de amigos, preocupados com o que vestir,
comer e fazer que nem conseguimos saber ao certo de por quê fazemos tudo isso. As
coisas tem um sentido imediato e só. E depois?
-
Infelizmente passamos a ter uma vida descartável, com amigos descartáveis, relacionamentos
descartáveis, empregos descartáveis. E isso é fruto do modelo de sociedade que
escolhemos viver, onde o consumo é a lei, só que consumo não é felicidade. Tudo
é consumível, mas só por um tempo, porque tudo sempre perde a validade.
- Sem
perceber trouxemos isso para o plano pessoal. Essa lógica tornou as pessoas
egoístas, preocupadas somente com elas mesmas e na sua busca insana por mais e
mais prazer. Se algo deixa de nos dar prazer por curto tempo, mesmo que no
longo prazo a recompensa possa ser incrível, nós desistimos e procuramos algo
que nos dê prazer imediato.
- A
consequência disso? Não nos preocupamos mais em ter amigos verdadeiros, porque
amigos verdadeiros podem falar coisas que nem sempre gostamos. Ao invés disso preferimos
ter muitos amigos, mas sempre superficiais. Passamos a acreditar que
relacionamentos não foram feitos para durar, simplesmente porque não podemos
aceitar conviver e aprender com os defeitos e problemas do outro, e ao invés de
aceitar as delícias de se dividir e ter intimidade com alguém, preferimos o
sexo casual, que pode ser bom, mas não traz felicidade.
- Por trás
de toda esta cortina de futilidades as pessoas esquecem que a única coisa que
faz sentido na vida é a felicidade. Ou na verdade, cegas de si mesmas, passam a
buscar a felicidade nos lugares errados.
- Mas pai,
felicidade é algo tão complexo! Não existe uma fórmula universal para isso.
- É verdade,
Sophie. Mas se você parar para refletir sobre isso irá notar que existem princípios
fundamentais que norteiam essa busca.
- A
felicidade é um estado de paz e bem-estar que só consegue ser verdadeiramente
alcançada se atender a três princípios básicos: é preciso estar bem com você
mesma; é preciso estar bem com as pessoas a sua volta; e é preciso estar bem
com o universo.
- Estar bem
com você é fundamental. Só é possível ser feliz quando você aceita a si mesma do
jeito que é, reconhece que não é perfeita e que nunca será, mas assume que
precisa sempre buscar ser uma pessoa melhor – o que implica sim tentar mudar os
seus defeitos mais graves. Somos diamantes brutos que precisam ser lapidados e polidos
para deixarmos toda a nossa beleza brilhar. Um resumo deste princípio? Amor
próprio.
- Estar bem
com as pessoas a sua volta é fundamental. Ninguém é feliz sozinho, porque fomos
programados para viver em grupo. Precisamos interagir, ter amigos, namorar, ter
filhos, cada um dentro do seu plano pessoal de vida. A qualidade dessas
relações nos dá prazer e conforto, e reconhecer que ninguém é forte sozinho é
um passo fundamental para viver bem. Claro que isso implica aprender a conviver
com os outros, saber respeitar e exigir respeito daqueles que te cercam.
- Por fim
mas não menos importante, é preciso estar bem com o mundo a sua volta. Digo,
mesmo que você cumpra com os dois princípios acima, ainda é preciso ter uma
luz, um direcionamento filosófico que te dê respostas a perguntas que nem
sempre conseguimos encontrar no dia a dia. A isso damos o nome de FÉ. Você pode
ter fé em Deus, ou fé em um mundo melhor, mas você nunca será completamente
feliz se não conseguir ter fé em nada, pois é isso que te proporciona uma
conexão com o universo, um sentido e uma esperança que motivam a existência.
- Nossa
pai, você falando assim até parece que é muito fácil ser feliz.
- Não
filha, ser feliz nem sempre é fácil. É preciso entender que a felicidade é um
caminho que trilhamos, muitas vezes fruto de nossas escolhas. Com quem
escolhemos estar? O que escolhemos fazer da nossa vida? No que acreditamos? É
um caminho muitas vezes difícil, mas é o único que vale a pena seguir.
- E você é
feliz, pai?
Hoje posso
dizer que sou. Demorei para aprender isto, mas a experiência é irmã da
sabedoria. Percebo isso toda vez que paro e penso em tudo o que já vivi até
aqui, e não me arrependo das escolhas que fiz. E principalmente quando olho
para você, Sophie, e vejo o quanto valeu a pena ter tomado todas as decisões
que me permitiram estar aqui com você hoje, e todas as escolhas que te
permitiram ser esta incrível mulher que você está para se tornar.